domingo, abril 30, 2006

Rasganço

[A noiva usa um chapéu branco
garrafa vazia na mão esquerda
e lábios vazios de vidro]

As suas mãos de vidro lascado
rasgavam o véu à tesourada

Que é do cão?

Bradava como uma cadela vazia de leite
com as unhas por desgastar
Útero vazio
De noite de núpcias

Planava a passadeira vermelha
Empunhando a garrafa vazia
Espremendo uma última gota
Suplicando ao padre por mais um pouco de líquido
Deixando cair uma lágrima de vidro
por não ter dado conta
que tinha deixado o amor acabar.

quarta-feira, março 15, 2006

a uma respiração

Sem inspiração inspira expira para se soltar do balão de ar na garganta sem dor sem palavra sem assunto nem direcção. Para onde é que ela vai indo na direcção oposta à suposta indo na ilusão aposta que consegue lá chegar. Sem inspiração ela não consegue dormir não consegue sumir-se não. Para onde é que ela vai sem almofada sem vestido sem o incenso ainda ter ardido. Expiração espirro escarro solta-se no ar como um bocado de carne engasgado e empedernido. Salivação de tanto bater o coração. Degustação de um assunto proibido inalado e agora vomitado. Para onde é que ela vai sem gotas para os olhos sem olhos para a despedida.
Quem lhe disse que não se pode penar simplesmente. Uma pena apenas. Por viver neste mundo.