quinta-feira, janeiro 26, 2006

Sem título

Foto: Jtrevidic


Respira levemente para arrepiar
Desce
Como um lenço macio de seda
Dos pés da cama ao chão
Rebola
Como uma foca no tapete de areia

Levanta-se olhando os dedos pequeninos dos pés
Morde para sentir prazer

Puxa o cortinado para deixar entrar luz
Acaba partindo a janela e cortando a face num caco

Soltou-se
E disseram em coro
Que tinha voado como Ícaro
Mas sem asas

Só depois encontraram um sentido
Porque ia com um sorriso
E descalça

Sentido na foca sentido no lenço de seda sentido no prazer
Sentido nos cacos de vidro
Sentido na face
Nos pés
E sentido no facto de não ter asas
De não ser Ícaro
De não ser Santa

No dia do enterro
Não ajudou nada
Esse facto
De não ser quem devia
O facto
De afinal ninguém saber quem era
Surpresa bonita
Mas agora morta

E ela ia linda
E continuava de seda
Ao ritmo da passada
Sobrevoava sem asas
Nos ombros dos homens

Linda
Sem nome e sem alas
Sem sapatos
O reflexo do sol nos cacos
Na janela na face
Nos ombros dos homens.

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