terça-feira, abril 24, 2007

Dador

Vidinha mais ou menos. Sinto sempre a falta da dor para escrever. Dos dias de angústia do peito em erecção dos teus amigos em consolação e de alguns a desejarem-te só para te proteger só porque não amas ninguém e não tens espaço para alguém. Então eles querem-te mais que nunca. Eles desejam-te mais que sempre. Eles seduzem-te e tu massacras a pele mas não sentes absolutamente nada. Para escrever sinto a falta da puta dor. Era o que faltava dar erro a puta no computador.
Há uma dor bêbada quando escrevo. Sinto a falta dela porque faz com que tenha vontade de arrancar as costelas para chegar com força ao coração. Das tripas coração coração entripado estripado como jack estripador. Sinto falta do calor que vem depois de uma dor um calor dormente adormecido que me faz adormecer. Uma noite uma puta noite que vadiei batendo contra as paredes por ninguém que não vinha. Depois da dor veio uma força monstruosa e eles tiveram medo por mim. Medo por puta mim. Ri ri e ri como uma maluca e descalcei-me perante a dor. Os dedos dos pés de fora e os sapatos gastos. Para escrever tenho saudades da dor e quando tenho dor escrevo. Quando escrevo com dor quero saudade e tenho saudade da puta da felicidade.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Cadelas

Cadelas

Lá vai andando
Não sabe às quantas vai
Às quantas andou
Há sede
Há sangue nas patas.

Lá vai andando
De língua pendurada
Com chumbo na ponta
Com peso na língua como se todos os órgãos se pendurassem na língua em aborto.

Lá vai numa passada contínua
Vê mal através de pupilas dilatadas
Névoa nos olhos sem cor
Cor dos mortos e das suas mãos humanas e hirtas
Arranhadelas na barriga
magra
O que é que isso tem? Gane.

Lá vai andando
Na secura de vários cães famintos
Continua a passada com medo que a quebra de ritmo quebre os pequeninos corações em aborto espontâneo. Em aborto provocado pela sua paragem.
O que é que isso tem? Uiva.
Já não crê em nada.